Ana Dulce Félix, atleta e mãe, em busca de qualificação olímpica

 

Por António Fernandes / FPA

Fotos Luís Barreto / FPA

 

Dezembro. Vésperas dos Campeonatos Europeus de Corta-Mato Lisboa 2019. No Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, Ana Dulce Félix mostrava a esperança em fazer uma boa corrida no seletivo Parque da Bela Vista. Ainda foi melhor e a minhota foi oitava classificada, liderando a equipa portuguesa (também com Salomé Rocha, 10ª., e Susana Francisco, 25ª.) para a conquista da medalha de bronze.

 

Uma época de 2019/2020 que prometia muito, com a atleta a tentar a qualificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 (que se realizam apenas em 2021) na maratona. Por isso não competiu nos nacionais de estrada e apenas equacionava uma incursão nos nacionais de corta-mato, onde tem sete títulos, e a participação numa maratona da primavera para chegar à marca de qualificação olímpica.

Contudo, a pandemia de Covid 19 colocou um forte travão nas suas intenções. «Estava a meio da preparação para uma maratona. E esta “rasteira” fez com que tudo fosse abaixo», refere-nos a atleta, que continua a treinar. Nos primeiros tempos de confinamento o treino não deixava ir à pista, o que agora já é possível. 

 

«Já temos autorização para treinar na pista. Mas tenho de confessar que o treino agora não é a mesma coisa. É difícil estar a treinar sem termos um objetivo a curto e médio prazo. Quem, como eu, aposta na maratona, ficou sem provas na primavera e as de outono estão diariamente a ser canceladas. Tinhamos essa determinação de conseguir a qualificação, pensámos em Lisboa, mas a prova foi cancelada, Londres não se sabe se vai ocorrer», refere a atleta que salienta que «já estive a treinar para uma e parámos a meio, agora não estamos muito interessados em fazer trabalho forte para uma prova específica que seja adiada ou cancelada duas semanas antes. A única coisa, a longo prazo, são os Jogos Olímpicos, onde quero muito participar, mas mesmo esses, diariamente, temos notícias contraditórias».

 

 

Treino de madrugada...  e uma vez por semana acompanhado à distância

 

 

Ainda assim a atleta treina diariamente, «saio de casa cerca das 6.30 horas, estou de regresso antes das oito», ainda antes da filha, de dois anos e meio, estar acordada. «Ela praticamente nem nota que saio para treinar, aliás, até acho que ela estranha estarmos mais tempo com ela», refere a atleta do Sport Lisboa e Benfica, que salienta o apoio do clube na atual situação em que vive. «Têm sido excelentes – já agora, tal como a Federação Portuguesa de Atletismo. Tenho mesmo sorte em estar neste clube, pois dão-nos o máximo de apoio, estão sempre ligados a tentar perceber as nossas necessidades, dando conselhos. Ligamo-nos semanalmente para fazermos treinos em conjunto, a FPA e o Comité Olímpico têm também grupos de apoio e, na verdade, isso faz-nos sentir mais próximos, apesar da distância. Esta tecnologia de vídeo-conferências, que não é novidade, mas que usávamos pouco, tem a particularidade de nos juntar ainda mais», refere a atleta.

 

 

O valor da liberdade

 

 

O treino pode ser intenso, em casa, mas quem passou a vida a treinar livremente nota bastante estas limitações.

 

«Tínhamos tanta liberdade e não dávamos valor a esse facto. É verdade que trabalhávamos intensamente, mas existia esse fator de ser a horas livres, com grupos de treino. Agora temos de ficar mais em casa», refere a atleta que, no entanto, como já deixara antever anteriormente, isso deixa tempo para outras coisas, «nomeadamente o acompanhamento da Matilde. Ela não estava na creche, estava numa ama, e de repente passou a ficar todo o tempo connosco».

 

A pequena Matilde assume um papel importante no casal Dulce Félix, atleta, e Ricardo Ribas, treinador, pois não é uma criança «que fica ‘colada’ à televisão. Gosta de andar de um lado para outro, tem muita energia. No fundo é um pouco como os pais, que fizeram uma carreira na corrida, sem parar!».

 

Essa alegria familiar faz com que a vimaranense “deixe para trás” outra parte profissional da carreira, as presenças em grandes competições. «É verdade, este ano não teremos nenhum outro rendimento que não seja o apoio do Benfica e da Prepol. Não temos provas no estrangeiro ou cá. Mas o importante é termos saúde e continuarmos a treinar», refere a atleta de 37 anos de idade que ainda quer competir «ao mais alto nível. Gostava de o fazer ainda este ano, mas se não for possível teremos mesmo de o fazer no início de 2021, pois quero muito competir nos Jogos de Tóquio».

 

BI

Nome: Ana DULCE FÉLIX

Data de Nascimento: 23-10-1982

Naturalidade: Guimarães

Clube: Sport Lisboa e Benfica

Treinador: Ricardo Ribas

PALMARÉS INTERNACIONAL (20 internacionalizações):

Campeã europeia de 10000 m em 2012 (2ª. em 2016, 8ª. em 2010; e 12ª. na meia-maratona em 2016); 8ª. nos 10.000 m dos Mundiais de 2011 (13ª. em 2009 e 2013); 20ª. na maratona dos Jogos Olímpicos de 2012 e 16ª. nos de 2016. Vice-campeã europeia de corta-mato em 2011 e 2012 (3ª. em 2010 e 2013, 6ª. em 2009, 8ª. em 2019). 15ª. no Mundial de corta-mato de 2009. 13ª. no Mundial de meia-maratona de 2008.
Noutras competições: 2ª. na maratona de Viena’2011 (2.26.20); 4ª. em Nova Iorque’2011 (2.25.40); 9ª. em Boston’2013 (2.30.05); 8ª. em Londres’2014 (2.26.46); 12ª. em Nova Iorque’2014 (2.35.33); 8ª. em Londres’2015 (2.25.15).

PALMARÉS NACIONAL:

Campeã de Portugal de 5000 m em 2010 e 2011 e de 10000 m em 2007, 2013 e 2019 (2ª. nos 5000 m em 2014 e 2015 e nos 10000 m em 2015; 3ª. nos 1500 m em 2009 e nos 10000 m em 2008); campeã de Portugal de corta-mato em 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015 e 2019 (2ª. em 2016); campeã de Portugal de corta-mato curto em 2010 (2ª. em 2007, 2008 e 2009); campeã de Portugal de estrada em 2011, 2012, 2014, 2015 e 2016 (2ª. em 2009, 2010 e 2013, 3ª. em 2008).

Hábitos de leitura: «Confesso que não tenho. Já não tinha antes de nascer a Matilde e agora, entre o treino e a família, o tempo para recuperar é muito precioso».

Filmes e séries: «Sempre que possível vejo um pouco, até para me distrair da pressão competitiva. A última série que acompanhei foi “A Casa de Papel”. Não perdemos um episódio!»

Música: «Ouço de tudo, em casa ou fora. Mas não gosto nada de música quando treino. Fui sempre habituada a treinar em grupo e respeito muito essa interação. Não sou capaz de estar com auriculares a ouvir música e treinar com outros colegas. Isso não seria respeitá-los. Por outro lado, não ter auriculares ajuda muito à segurança. Assim conseguimos ouvir tudo o que nos rodeia, principalmente os carros quando temos de ir para a estrada.»
   
 

Categoria: