As medalhas alcançadas, os recordes e os resultados desportivos são apenas a face visível do “iceberg” que representa o trabalho de atletas, treinadores, clubes e associações na modalidade do atletismo. Uma das partes menos visíveis, mas influenciadoras do sucesso, diz respeito à formação dos agentes desportivos e, neste âmbito, a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) desempenha um papel fulcral.

 

Para Fernando Tavares, vice-presidente responsável por esta área, “a formação e qualificação de recursos humanos é fundamental para termos melhor Atletismo. Este é um pilar fundamental na estratégia de desenvolvimento da FPA. Só através de recursos humanos mais qualificados poderemos ter mais qualidade nas organizações (FPA, Associações Regionais e Clubes) através dos seus trabalhadores, nas atividades desenvolvidas através de uma maior eficácia do dirigente, do juíz, de outros técnicos, dos pais, dos adeptos e melhor e mais qualificada intervenção dos treinadores”.

 

 

De facto, em dados recolhidos entre 2013 e 2019 (o ano de 2020 ainda está em balanço), a Comissão para o Conhecimento da FPA (responsável pela formação e qualificação) promoveu a realização e a participação de agentes num total de 393 ações de formação (algumas delas no estrangeiro), com um total de 8725 formandos registados.

 

Estas ações, dirigidas a vários públicos-alvo (ver tabela 1), conheceram maior incidência (como seria de esperar, nos treinadores, sendo a forma de Jornadas Técnicas a de maior procura [média de 485 formandos por ano], seguida da forma Seminários [com 149 formandos de média]. A formação de juízes foi participada, numa média anual, por 145 formandos.     
 

 

Tabela 1

Alvo

Ações

%

Dirigentes

14

3,6

Formação de formadores

9

2,3

Juizes

63

16

Professores de Educação Física

24

6,1

Treinadores

260

66,2

Outros

23

5,9

 

Nesta tabela verifica-se o peso da formação de técnicos (66,2%), mas Fernando Tavares aborda questões que vão além das ações, como o aproveitamento. Assim, “faltando ainda estudos de verificação da evolução técnica de treinadores associada à formação realizada, podemos inferir que, de facto, nota-se uma melhor intervenção técnica generalizada. Ao nível dos treinadores que enquadram praticantes de alto rendimento não poderemos dissociar uma melhoria de resultados das várias oportunidades para a sua valorização técnica e profissional. Recorde-se que a maioria destes treinadores foi apoiada através da ida a ações de formação no estrangeiro e da vinda de treinadores conceituados a Portugal. Foi um investimento que pensamos traduzir melhorias significativas”, e em continuação, “os treinadores que concluíram recentemente cursos e ações de formação estão, neste momento, claramente melhor apetrechados do ponto de vista da intervenção técnica”.

 

Sobre esta última abordagem, o vice-presidente da FPA realça que “importa continuar esta dupla aposta: formar mais e melhores treinadores e qualificar os existentes procurando uma maior fixação à modalidade. A própria dinâmica entre treinadores de alguns sectores da modalidade é claramente melhor na perspetiva da partilha de informação e vontade de se conseguirem melhores resultados”.

 

Das formações de treinadores realizadas, 63 destinaram-se aos conceitos geral (22) e multissetorial (41), mas uma grande percentagem referiu-se a ações setoriais, com os lançamentos na frente a registarem 37 ações, logo seguidos das ações de velocidade (31) e meio-fundo (30), com a marcha a registar 22 ações e os saltos 19. Neste âmbito, realizaram-se ainda 26 ações para professores de Educação Física, 24 cursos de treinador de Grau I, quatro de Grau II e três de Grau III (um geral, um de meio-fundo e um de velocidade).  

 

Neste período aqui retratado, a oferta formativa apresentou um total de 52% de ações creditadas pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude, que permitem a soma de créditos para efeitos de renovação das suas licenças de treinadores. “A obrigatoriedade de se obterem créditos para a renovação do Título Profissional de Treinador de Desporto provocou um aumento dos formandos que procuraram as ações de formação. No entanto, relembro que numa fase inicial do período temporal aqui retratado, a maioria das ações não era creditada porque o próprio processo de creditação não estava implementado. Mas estamos convictos de que a maioria dos nossos formandos não é 'caçador de créditos', mas treinadores conscientes de que é necessário evoluir continuamente. Na realidade, o treinador deve pensar como o atleta: tenho de treinar melhor (entenda-se investir na minha formação contínua) para melhorar a minha performance”, sublinha Fernando Tavares.

 

Nos últimos três anos (2017, 2018 e 2019), as ações passaram a ter um custo de inscrição. Um passo que foi necessário dar pela FPA e que aqui é explicado pelo vice-presidente da FPA: “O custo de inscrição existe desde 2013. Foi uma decisão política tomada em contraciclo ao poder de compra, mas refira-se que se considera a possibilidade de descontos até 100% do custo de inscrição, isto é, não há formação grátis. Inclusive, já tivemos casos de formandos que, em virtude das dificuldades que atravessavam, tiveram sempre acesso à formação com 100% de desconto.” Sobre este tema, Fernando Tavares indica ainda que “as verbas dessas receitas com inscrições são investidas na própria formação. Isto significa que à verba que o nosso parceiro IPDJ contratualiza somamos as verbas das inscrições, podendo assim fazer mais formação". E acrescenta: No ciclo Rio de Janeiro (2013-2016) tivemos 68 914,90 € de receitas acrescidas ao financiamento de 234 000,00 € do IPDJ o que nos permitiu concretizar formação no valor de 307 307,31 €. Neste ciclo de Tóquio 2020 (2017-2019) temos 61 001,76 € de receita a somar aos 197 000,00 € do IPDJ. Para finalizar, curiosamente, como podemos constatar nos relatórios, o pagamento de taxas de inscrição não fez com que diminuísse o número de formandos, até pelo contrário, aumentou. Se compararmos o preço solicitado verificamos que este é muito reduzido, quando comparado com outras modalidades desportivas, e que vale bem o investimento, considerando a qualidade da generalidade das formações”.

 

Neste atípico 2020, com diminuição da atividade física em forma de competição, devido à pandemia de Covid-19, a FPA apoiou ainda mais a realização de ações formativas, prevendo-se que feche o ano com um total de 98 ações. Contudo, esta mesma pandemia obrigou a novas formas e conceitos de formação, diminuindo as de forma presencial, aumentando as de cariz online. Daí não se estranhar que 45 ações tenham sido realizadas desta forma, destacando-se, uma vez mais, as ações da área dos lançamentos, com 25 momentos formativos (alguns também transversais a outras áreas).

 

Este novo modelo formativo trouxe novos desafios, com um formato de transmissão de conhecimento através de plataformas que, já existindo, não estavam a ser utilizadas. Pergunta-se então a Fernando Tavares, como é que reagiram a estes desafios e qual o retorno participativo que conheceram? O vice-presidente da FPA responde: “Já utilizamos desde 2015 a plataforma educativa Moodle de e-learning, com todas as suas potencialidades de partilha de informação, avaliação, interatividade entre formandos e formadores. Mas, por nossa opção, tal só acontece nas unidades de Formação Geral dos cursos de treinadores de Grau II e de Grau III. Naturalmente que, com a pandemia, tivemos de avançar. Gostamos de utilizar a máxima ‘Organização que aprende... evolui’ e foi isso que sucedeu. A necessidade de comunicarmos e partilharmos à distância levou a uma utilização generalizada da plataforma Zoom, como meio privilegiado de organizar ações de formação. E aí, o sector de lançamentos, através do seu responsável Paulo Reis, foi de facto o primeiro a dinamizar esta forma de comunicar. Foi de tal forma inovadora que não foram só formandos e formadores nacionais a usufruir desta opção, verificando-se o alargamento a estrangeiros. Os outros setores realizaram também várias ações de formação. Foi mais um exemplo de como o Atletismo pode marcar o ritmo fazendo de uma ameaça uma oportunidade”.